Desenrola 2.0: Taxas elevadas agravam a dívida das famílias brasileiras

Por Agência Brasil

Brasil – Especialistas em economia apontam que a taxa Selic, que é a taxa básica de juros no Brasil, combinada com os altos spreads bancários cobrados pelos bancos, está exacerbando o endividamento das famílias. Em resposta a essa situação, o governo anunciou nesta semana o programa Novo Desenrola.

O spread bancário refere-se à diferença entre o juro que as instituições financeiras pagam e aquele que cobram dos consumidores. Em março, essa taxa chegou a 34,6 pontos percentuais (p.p.), um aumento em relação aos 29,7 p.p. do mesmo mês em 2022.

Para contextualizar, o Banco Mundial estima que a média global de spread bancário é cerca de 6 p.p.

A economista da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, esclarece que uma elevação na taxa Selic pelo Banco Central (BC) resulta em juros mais altos para os empréstimos concedidos às famílias. “Os juros para empréstimos estão excessivamente elevados. Isso claramente impacta no endividamento das pessoas e dificulta o funcionamento da economia”, comentou Maria Lourdes.

A docente da UnB também mencionou a deterioração das condições de trabalho no Brasil como um fator agravante para as finanças familiares, creditando essa questão à reforma trabalhista implementada durante o governo Michel Temer.

“Muitas pessoas estão se endividando para suprir suas necessidades básicas e despesas diárias. O Novo Desenrola pode proporcionar um alívio financeiro e até estimular a economia”, acrescentou Maria Lourdes.

No cenário global, o Brasil ocupa a segunda posição em termos de juros reais básicos mais altos do mundo, ajustados pela inflação, com uma taxa de 9,3%. O país só fica atrás da Rússia, que enfrenta uma guerra e possui uma taxa de 9,6%. O México ocupa o terceiro lugar com uma taxa de 5% segundo informações do site especializado Moneyou.

No último encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a Selic foi reduzida em 0,25 p.p., alcançando 14,5%, embora ainda seja considerada alta. O BC defende essa taxa como essencial para controlar a inflação; entretanto, críticos argumentam que esse nível é excessivo.

Endividamento das famílias

<pPelo quarto mês consecutivo, as dívidas entre as famílias brasileiras aumentaram e atingiram 80% em abril, um “recorde histórico”, conforme pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A porcentagem de famílias inadimplentes ficou em 29,7%, mantendo-se relativamente estável. “As famílias que recebem até três salários mínimos apresentam o maior índice de endividamento (83,6%) e também o maior percentual de contas atrasadas (38,2%)”, destacou a CNC.

Líder mundial no spread bancário

A economista Juliane Furno da Universidade Federal Fluminense (UFF) observa que o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras pode ser atribuído às “altíssimas” taxas do spread bancário.

<p“O Brasil possui um dos maiores spreads bancários do mundo; em algumas comparações recentes aparece no topo do ranking. Os bancos justificam esse spread elevado devido à alta inadimplência. No entanto, é preciso considerar que essa inadimplência também é consequência dos juros altos”, aponta Juliane.

A classificação da World Open Data referente a 2024 coloca o Brasil como líder global em spread bancário seguido por países como República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola e Timor Leste.

Dados disponíveis do BC revelam que as instituições financeiras cobram uma taxa média anual de 61% para pessoas físicas e 24% para empresas até março deste ano.

A professora Maria Mello de Malta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ressalta que a elevadíssima taxa básica brasileira influencia diretamente nos juros cobrados pela população. “Com uma Selic alta, todas as outras taxas também sobem. Quando um trabalhador ultrapassa seu limite ao pagar um empréstimo ou cartão de crédito e não consegue honrar suas dívidas, os juros aplicados superam a própria Selic”, afirmou Maria à Agência Brasil.

Ainda segundo Malta, tal situação cria um ciclo vicioso onde as famílias buscam novas fontes de crédito para quitar suas dívidas iniciais e acabam se endividando ainda mais ao longo do tempo.

Dentre os empréstimos com juros mais altos no Brasil estão os relacionados ao rotativo do cartão de crédito, cuja taxa pode ultrapassar os 400% ao ano.

Novo Desenrola

A administração federal lançou recentemente o Novo Desenrola Brasil com o objetivo de auxiliar famílias, estudantes e pequenos empresários na renegociação de dívidas visando limpar seus nomes e recuperar acesso ao crédito.

A nova fase desse programa terá duração de três meses e oferecerá descontos que podem chegar até 90%, redução nas taxas de juros e a possibilidade de utilizar recursos do FGTS para quitar dívidas.

 

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By Cotidiano Curitibano

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