4ª Edição do Congresso da Abramilho aborda desafios e estratégias do agronegócio no Brasil em tempos incertos

Sandro A. Carrilho

Na capital federal, Brasília, as atenções se voltam nesta quarta-feira (13) para o 4º Congresso da Abramilho, que ocorre no Unique Palace. Reconhecido como um dos fóruns mais relevantes do país para as cadeias produtivas de milho e sorgo, o evento deste ano tem como tema principal “Milho: o grão que revoluciona o mundo”.

A edição de 2026 acontece em um contexto de transformações importantes para a agricultura. Durante o congresso, representantes do setor, autoridades públicas e especialistas internacionais estarão discutindo estratégias para que o Brasil continue sendo um protagonista no mercado global, mesmo diante das incertezas geopolíticas e do aumento na demanda mundial por alimentos e bioenergia.

A programação do evento inclui painéis que abordam desde inovações em biotecnologia até os efeitos dos custos logísticos na competitividade do agronegócio. Um dos principais desafios mencionados pelo setor é a instabilidade nos preços dos insumos agrícolas e do diesel, fatores que elevam os custos de produção e exigem maior eficiência na gestão das propriedades rurais e da cadeia logística.

A cerimônia de abertura também teve como objetivo indicar as prioridades do governo e do Congresso Nacional para a safra 2026/2027. Em suas falas, o vice-presidente Geraldo Alckmin, a senadora Tereza Cristina e o ministro André de Paula enfatizaram a importância da estabilidade econômica, dos investimentos em infraestrutura e do fortalecimento das políticas de apoio ao produtor rural.

O milho como pilar da industrialização sustentável

<pDurante suas intervenções no congresso, o vice-presidente Geraldo Alckmin destacou que o milho evoluiu de uma simples commodity agrícola para um elemento central na industrialização sustentável do Brasil. Ele afirmou que a bioeconomia se tornou uma prioridade para o governo federal, visando agregar valor à produção agropecuária nacional.

Alckmin ressaltou que a ampliação da produção de etanol de milho e dos farelos ricos em proteína, conhecidos como DDGs, é um exemplo claro dessa nova fase industrial no agronegócio. O vice-presidente mencionou que o governo está comprometido em criar um ambiente econômico estável para fomentar o crescimento do PIB agropecuário e aumentar os investimentos no setor.

Segundo ele, essa proposta interliga a produção rural às inovações em descarbonização desenvolvidas pelo Brasil, aumentando a competitividade nacional e estabelecendo o país como uma referência internacional em bioenergia e sustentabilidade.

Infraestrutura e seguro rural no centro das discussões

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, focou sua participação nos principais obstáculos enfrentados pelo agronegócio brasileiro durante o congresso. Ele destacou que fortalecer o Plano Safra, aprimorar o Seguro Rural e aumentar a capacidade de armazenamento são essenciais para garantir maior segurança econômica aos produtores rurais.

Entre os desafios elencados pelo ministro está a falta de infraestrutura adequada para armazenar a produção agrícola. Ele mencionou que expandir a rede de silos e armazéns é uma prioridade do governo, permitindo que os produtores tenham melhores condições para comercializar seus produtos e escolher momentos estratégicos para vender suas safras.

Sem infraestrutura apropriada, muitos agricultores acabam vendendo sua produção sob pressão do mercado, diminuindo suas margens de lucro. Para mitigar esse problema, o governo federal planeja aumentar os investimentos na modernização da logística de armazenamento nas propriedades rurais.

André de Paula também abordou a questão do seguro rural como uma preocupação central do setor. Ele reconheceu a necessidade de aumentar os recursos disponíveis para subvenção devido aos impactos das mudanças climáticas na produtividade agrícola. O mecanismo é considerado vital para proteger as finanças dos produtores e assegurar condições favoráveis ao plantio da próxima safra.

O governo também está explorando alternativas para ampliar a cobertura do seguro em regiões com maior risco climático, especialmente nas áreas dedicadas à produção de milho safrinha e sorgo.

Competitividade brasileira e relações comerciais com a China ganham relevância

A senadora Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, enfatizou a necessidade de segurança jurídica para atrair novos investimentos ao agronegócio brasileiro. Segundo ela, regras claras e um ambiente regulatório estável são cruciais para incentivar os produtores a investirem em tecnologia e aumentarem sua produtividade num mercado internacional cada vez mais competitivo e protecionista.

No decorrer do evento, Tereza Cristina alertou sobre o aumento dos custos de produção impulsionados principalmente pelas despesas com transporte e pela carga tributária. A senadora defendeu uma postura mais assertiva por parte do Brasil nas negociações comerciais internacionais com vistas à redução das barreiras impostas aos produtos brasileiros e à proteção da competitividade conquistada pelos produtores até alcançarem os mercados externos.

Lupion faz críticas contundentes sobre exigências ambientais europeias

Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), fez uma das críticas mais incisivas durante o congresso ao questionar as novas exigências ambientais estabelecidas pela União Europeia. Para ele, essas imposições configuram uma forma disfarçada de protecionismo comercial sob pretextos ambientais. Lupion argumenta que o Brasil deve aproveitar sua posição estratégica como um dos maiores fornecedores mundiais de alimentos para negociar em igualdade com outros países no mercado internacional.

Ele observou que as relações comerciais entre Brasil e Europa não são unilaterais; atualmente, 16% das exportações brasileiras no agronegócio têm como destino o bloco europeu enquanto 52% vão para a China. Na visão dele, essa diversificação nos mercados compradores fortalece a capacidade de resposta do país frente eventuais sanções ou restrições consideradas injustificadas.

Lupion também sugeriu a aplicação da Lei da Reciprocidade, um mecanismo legislativo que assegura tratamento igualitário entre produtos brasileiros e europeus. Com essa proposta, barreiras impostas aos grãos ou proteínas animais produzidos no Brasil poderiam resultar em medidas proporcionais por parte do governo brasileiro. Essa iniciativa visa proteger os produtores nacionais contra barreiras técnicas que desconsiderem as normas previstas no Código Florestal Brasileiro.

Paulo Bertolini compartilha perspectivas promissoras para o mercado interno de milho

No âmbito industrial, Paulo Bertolini, presidente da Abramilho, apresentou previsões otimistas sobre o mercado interno de milho. Ele destacou que a indústria produtora de etanol proveniente desse grão se consolidou como um dos principais pilares sustentadores dos preços desse cereal no país.
Atualmente, mais de 20 milhões de toneladas de milho são processadas anualmente pelo setor; entretanto, há expectativas significativas quanto à expansão nos próximos anos. Com novas usinas entrando em operação junto à ampliação das unidades existentes, espera-se alcançar uma capacidade total de processamento superior a 40 milhões de toneladas anuais.

Bertolini afirmou ainda que esse crescimento industrial diminui o excedente destinado à exportação além de reduzir a vulnerabilidade dos produtores às flutuações nos preços internacionais bem como aos custos logísticos portuários. Esse movimento é visto pelo setor como estratégico tanto para fortalecer o mercado interno quanto para aumentar o valor agregado à produção agrícola brasileira.

By Cotidiano Curitibano

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